segunda-feira, 30 de novembro de 2015

EM PROSA DE SERTANEJO SEM VERSO E SEM POESIA, É COVARDIA!

           
                                                                         Arte: Carla Zanetti
           
  E quem se perguntar por que essa gente escolheu esse lugar, há de responder que o lugar foi quem escolheu toda gente pra morar. Por aqui se está e por onde sempre há de beijar!
Um lugar seco e quente, eu já sei disso seu viajante. Desajunte seu acento e vem cá pra perto dagente prosear! Lugar que não chove o suficiente é aqui, onde a vida é intermitente. É disso que não nos alumia inconveniente, mas tira-se de resto um torto repente.
Não é estiagem, o raso sol salgado, adverso lugar que não se mete uma planta, é falta de oportunidade, porque pobre é aqui qualquer forma de esperança. Pode-se por observação se contar dois fardo de permanência ao supra citado.
O primeiro: social, sem lugar abastado, afeiçoam-se a viver no tempo que a terra lhes puser. Do outro o apego ancestral. Terras que não se come, mas se lembra. Terra que não se vence, mas se sente. Já se diz, por entre falas do João Guimarães Rosa, “O sertão está dentro d’agente”.
O sertanejo, moldado nas arestas do semiárido nordestino pelas forças da miscigenação Ameríndia, com a bravura africana e a marcante tradição europeia sebastiânica, formou-se como tal, um povo que desde então, a partir do marcante cultura do gado bovino desbravado pelo Velho Chico mundão adentro, o desconhecido sertão à sua colonização e domínio foi singrado. Longe do ideal “Don Quixote”, mas Cervantes é terra da gente!
Por essas pagas, tangido pela força da necessidade, resplandecido por sonhos soberanos de “reis e donzelas” fortalecidos pela esperança da salvação do Divino Sacramento, o sertanejo foi-se inspiração de seu próprio sentimento, a guiar-se por entre o mundo das incertezas, por entre os sois infinitos dos meios-dias, as intempéries dos silêncios das “noites” a guiar-se das desconhecidas alvoradas secas e neblinadas de esperanças. Cantaria bem mais profunda a doce Raquel cearense que no “O Quinze”, suspirou em registro a seca tão demente!
O sertanejo foi-se engenhoso pelo grito inerte e urgente a adaptar-se em convivência de curto espaço e longa de tempo, do que ao redor de sua vida continuamente é desafiadora torrente.
O sertanejo foi-se um Titã renitente numa batalha infindável e desfavorável às suas estratégias de sobrevivência. Batalha que não se vence; combate que não se rende. Entrincheirando em suas crenças, em seu corpo pálido, seu respiro seco, seu olhar famélico e indulgente. Assume o fardo, não declara desonra, sustenta a fé e suporta o ávido sol no resto de carne que ainda lhes resta ao rosto complacente. Pobre Homero que na “Iliada”, não travou batalha tão sinistra semelhante a que aqui ainda existe na traição de todo o sempre.
Teu mundo dentro de si, não aparenta ser maior que o seu quintal inflado de desassossego, numa paz morta trilhando caminho onde no mesmo dia que é conhecido estreito seguro rente, torna-se misterioso visto na noite de silêncio!
O sertanejo dia a dia, ver-se segue sem rumo, sem lado, sem flanco ou ribanceira, mas o seu feroz “inimigo” teima a espreitar incansável do alto da cumeeira.
A batalha é constante. A guerra se trava em silêncio, sem canhões, sem bandeiras sem toque de recolher! O olhar frígido comumente é a única baioneta que se serve ríspido a vertical ou horizonte.
E a dor que se sente, suspiro de uma quase gente, o inimigo lhes suga a testa, lhes queima a mente, lhes treme quente em momento que nem chuva não se pensa.
O tempo parou: ele lá e cá aqui o sertão numa peça de gente. Confia na raiz que imagina e sustenta em medo pela força, mesmo sem garapa de cana, num rosto atirado pra cima não vacila e não se atreve a se perder de vista.
O sertanejo, foi-se de sabedoria e engenhosidade genuína, estas minadas e espremidas da alvoroça extremidade inventiva lida que a necessidade alugada em praga e reza o obriga.
O sertanejo nasceu inato imune ao próprio temor, seguro de suas experimentações ao longo de sua vida vivida.
O sertanejo é sábio por seu acurado instinto mítico. Por superstições, em típica originalidade helênica, mas de um só Deus pra toda vida!
O sertanejo é o engenhoso funcionamento da vida desassossegada. Sinais de chuva, ouvidos que ressoa fases da lua; mudanças, limites, farturas, projeções... Onde com a escassez se brinca, mas com as “leis” conservar-se e se finda. Não ler enciclopédia para aprender para a vida!
O sertanejo corteja a arte da esperança com a fé manifesta ritmada na acolhida alegria junina.
Sertanejo manifesta-se em poesia, palavras, formas e em fala pitoresca de frutíferas gerações que já se tem quem cante em filosofia, eis lá o “poeta do absurdo”. No artesanato que rumina e envereda pelo carrasco, em montaria da segurança em barro do dia e que amanhece fria. E sempre tem porta batendo de esperança nas adversidades, choram-se ou tiram-se de ruínas amigas tapeçarias.
Do pífano, da zabumba e da rabeca... o mistério se esconde, sem rosto, sem nome, sem depoimento e sem cortesia. A aridez tira o brilho do sorriso, a terra que reside riqueza e lamento, o cordel do sertanejo foi dado no dom de ensinamento.
Sertanejo sutil fez do sertão o seu cantil, pelo grito verniz cinzento pinta o cenário do céu com fitas de pindobas sem polimento. A alegria simples de todo dia, importa mais que alforria!
Sertanejo que faz brotar vida onde não se imagina. Para quem não se dar a compreender, lá pela velha Canudos de imponência, Euclides da Cunha hei de dizer: “Não há manhãs que se comparem as de canudos: nem as manhãs sul mineiras, nem as manhãs douradas do planalto central de São Paulo”.
E na lembrança da “vingatice” do Virgulino cruzada na benção do Padin Ciço, homem ligeiro, o sertão seco ou brejeiro, mais que justiceiro de ontem hoje é forte pelo acolhimento herdeiro, desde nos arautos do Conselheiro, José Lins, Patativas e Suassunas ao rico povo obreiro, sombreado nas caatingas dos juazeiros faz-se hoje para sempre perfeito o bem-vindo com um forte aperto para todo amigo brasileiro, seja ele, devoto ou não, da esperada e eterna salvação pelo tão ilustre Rei Sebastião!


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