O
século XXI está marcado pelo crescente aumento da população mundial demandando
naturalmente mais alimentos. Entretanto isso fez insurgir nas últimas décadas um
emaranhado de informações acerca de uma possível insegurança alimentar provocando
amplo alvoroço de preocupações como se a fome atual nada significasse. Ou seja,
de certa forma uma informação atrasada, já que a falta de comida, desde muito
tempo faz parte da vida de muitos em países africanos, asiáticos e
latino-americanos. Como em alguns lugares no Brasil, por exemplo, ainda que alguns
esforços tenham diminuído.
Nos
zum-zum-zuns das especulações, uns alardeiam que crise só acontece quando os
padrões de consumo mais opulentos dos países nórdicos são “incomodados” por
crises econômicas. Outros asseguram que se deve às organizações internacionais respaldando
outros interesses. Alguns de que se deve ao explosivo crescimento demográfico. Não
sei, mas por certo, nessa nova ordem mundial, não se pode duvidar de nada. Porém,
antes que se tente apurar verdadeiramente os fatos, as causas, os porquês e auês,
alguns oportunistas de plantão se utilizam de situais como tais para favorecer
seu campo de interesse. Por exemplo, o mercado madeireiro ilegal, o qual diante
de uma “tensão alimentar” como essa, montam, imediatamente, planos estratégicos e
minuciosos em tentar convencer a opinião publica de que há vantagens no
aniquilamento de ambientes naturais, justificando-se pelo fato
de que se vão produzir alimentos. Falatórios como esses foram e são ainda disseminados pelo
Brasil afora a favorecer o aumento das fronteiras agrícolas em detrimento de ambientais naturais, desprovidos de qualquer tipo de estudos de impactos
ambientais, inclusive.
Nisso,
eu aqui com meus botões fico analisando o quanto dessa questão alimentar tem
gerado discursos dos mais mascarados, tendenciosos e enganosos, produzindo intencional
e irresponsavelmente contradições nos dois lados da moeda: agropecuaristas que a
todo custo querem aumentar suas fronteiras agrícolas e os ambientalistas que a
todo custo são contra o agronegócio. Ou seja, ambos no calor de seus interesses
irrestritos acabam por se perder em discursos vaidosos, cartesianos e teóricos,
tão somente. Por vezes perdendo o foco (de forma irracional até) naquilo que se pretende enquanto defensor de
uma causa ou outra. A humanidade precisa tanto de alimentos quanto dos serviços
ambientais e em níveis de igualdade. Isso é fato! Para isso é necessário
compreender o funcionamento do planeta através de uma visão holística,
eu diria, de que o todo é maior que a simples soma de suas partes. E nisso é
que a humanidade se beneficia. Enquanto isso, as vigentes contradições quanto à insegurança
alimentar são corriqueiras, abrindo precedentes para todo
tipo de colocação.
Pois
bem, vamos às contradições: segundo estudos da FAO (Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura) feito em 2012¹, aproximadamente 40% do
que se produz de alimento no mundo (portanto quase a metade) é desperdiçada.
Jogado no lixo! Vale dizer que os maiores índices de desperdícios e má distribuição de alimentos são promovidos, principalmente, dentro dos próprios países subdesenvolvidos, contrariando aqueles que dizem que a fome na áfrica é pelo consumo exagerado dos EUA, como se costuma dizer. O problema da África, da Ásia ou do Brasil está, principalmente, dentro de cada país, seja no desperdício, problemas climáticos, políticos ou corrupção. Mas aí pergunto, será que existe crise de alimentos de fato? Será
que para alimentar a população mundial vindoura e, antes disso, matar a fome
dos milhões dos que já existem é preciso derrubar mais florestas? Em minha
ingênua opinião, se o interesse fosse realmente alimentar a humanidade, já o era
possível só com o que se tem atualmente, desde já, controlando os aberrantes
desperdícios. Digo opinião ingênua porque, infelizmente, a preocupação por essa
crescente produção é estimulada por outros interesses. Que o digam os fortes
mercados mundiais de especulações financeiras. Ou seja, não interessa se o que
produzir, em termos de comida, vai para a boca de alguém ou para o lixo. Não
interessa se o dano ambiental é preocupante ou não. Importa é que a produção
tenha bons câmbios e mercados. Essa é a lógica, oh, cara pálida!
No
Brasil ficou explícito quando tentaram esquartejar o Código Florestal. A
ampliação das fronteiras agrícolas estava acima de qualquer defesa dos espaços
naturais preservados os quais nos são vitais pelos serviços ambientais. Porém o
que vem ao caso é que no Brasil não se necessita de mais derrubadas de
florestas para implantação de pastos ou culturas agrícolas. Em extensão, o
Brasil é um dos países (senão o maior!) em fronteiras agrícolas, com
destaque para o clima e solos favoráveis. O problema está em baixa produtividade.
Ainda
segundo a FAO, em seu anuário de produção (Production
yearbook)², a produtividade média em milhões de toneladas ha/ano de trigo e
milho, tratando-se de commodities, no Brasil tem sido 62,5% e 75%,
respectivamente, menores que nos EUA. Diga-se de passagem, nos EUA existem
extensas áreas improdutivas como desertos e pântanos, além de períodos do ano com
baixas temperaturas desfavoráveis ao cultivo. Diferentemente do Brasil onde o
jargão “tudo que se planta, dá”,
seria bem mais verdadeiro se empregassem tecnologias. Isso mesmo, o diferencial
é que nos EUA se investe maciçamente em pesquisa e tecnologia em busca de produtividade
cada vez maior.
A insegurança alimentar tem sido uma bandeira muito utilizada por discursos ideológicos, reverberando para o mundo inteiro que se trata de acontecimento apocalíptico incontornável, produzido por países capitalistas. O que não passa de um argumento desprovido de qualquer lógica, já que é o próprio capitalismo que tem mais produzido alimento no mundo, além de estimular e financiar diversas tecnologias. Sem falar de que há, por interesses mesquinhos de setores produtivos, especulações e ideologizações segmentando as sociedade no mundo, com políticas e sistemas de governo falhos. Ou seja, a insegurança alimentar tem sido mais intensificada por sistema de
subsídios e políticas protecionistas que promovem o desaceleramento da produção
mundial; por embargos e questões de conflitos políticos ideológicos; por insignificantes investimentos em infraestruturas o que, além de produzir pouco, produz com custo alto; tecnologias arcaicas e insuficientes ou fundamentalismos ideológico-político-religiosos que não permitem meios
tecnológicos em seus domínios; disseminações (ainda) de teorias ultrapassadas como a malthusiana e a reformista
(marxista), que inseridas nas políticas econômicas, acabam por não estimular desenvolvimento do setor agropecuário... Enfim, tudo isso converge, consequentemente, na resultante de gente cada vez mais mal alimentada e
vítima de inanição por todo o mundo, vistos, principalmente, por governos corruptos, totalitários e intolerantes. Por
sua vez, é preciso entender que as florestas devem ser preservadas e não se
tornarem 'vítimas' de teorias psicopatas e ambições nefastas. Onde, de uma vez por
todas, saibamos que a falta de alimento no mundo não se resolve com o desespero
e o precipitado argumento de que se deve destruir mais e mais espaços naturais.
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¹Fonte:
Desperdício mundial, 2012. <https://www.fao.org.br>

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