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| Arte: Carla Zanetti |
Um lugar seco e quente, eu já sei disso
seu viajante. Desajunte seu acento e vem cá pra perto dagente prosear! Lugar que não chove o
suficiente é aqui, onde a vida é intermitente. É disso que não nos alumia
inconveniente, mas tira-se de resto um torto repente.
Não é estiagem, o raso sol salgado,
adverso lugar que não se mete uma planta, é falta de oportunidade, porque pobre
é aqui qualquer forma de esperança. Pode-se por observação se contar dois fardo de permanência
ao supra citado.
O primeiro: social, sem lugar
abastado, afeiçoam-se a viver no tempo que a terra lhes puser. Do outro o apego
ancestral. Terras que não se come, mas se lembra. Terra que não se vence, mas
se sente. Já se diz, por entre falas do João Guimarães Rosa, “O sertão está
dentro d’agente”.
O sertanejo, moldado nas arestas do
semiárido nordestino pelas forças da miscigenação Ameríndia, com a bravura
africana e a marcante tradição europeia sebastiânica, formou-se como tal, um
povo que desde então, a partir do marcante cultura do gado bovino desbravado
pelo Velho Chico mundão adentro, o desconhecido sertão à sua colonização e
domínio foi singrado. Longe do ideal “Don Quixote”, mas Cervantes é terra da
gente!
Por essas pagas, tangido pela força da
necessidade, resplandecido por sonhos soberanos de “reis e donzelas”
fortalecidos pela esperança da salvação do Divino Sacramento, o sertanejo
foi-se inspiração de seu próprio sentimento, a guiar-se por entre o mundo das
incertezas, por entre os sois infinitos dos meios-dias, as intempéries dos silêncios
das “noites” a guiar-se das desconhecidas alvoradas secas e neblinadas de
esperanças. Cantaria bem mais profunda a doce Raquel cearense que no “O
Quinze”, suspirou em registro a seca tão demente!
O sertanejo foi-se engenhoso pelo grito
inerte e urgente a adaptar-se em convivência de curto espaço e longa de tempo,
do que ao redor de sua vida continuamente é desafiadora torrente.
O sertanejo foi-se um Titã renitente
numa batalha infindável e desfavorável às suas estratégias de sobrevivência.
Batalha que não se vence; combate que não se rende. Entrincheirando em suas
crenças, em seu corpo pálido, seu respiro seco, seu olhar famélico e
indulgente. Assume o fardo, não declara desonra, sustenta a fé e suporta o
ávido sol no resto de carne que ainda lhes resta ao rosto complacente. Pobre
Homero que na “Iliada”, não travou batalha tão sinistra semelhante a que aqui ainda existe
na traição de todo o sempre.
Teu mundo dentro de si, não aparenta
ser maior que o seu quintal inflado de desassossego, numa paz morta trilhando caminho onde no mesmo dia que é conhecido estreito seguro rente, torna-se
misterioso visto na noite de silêncio!
O sertanejo dia a dia, ver-se segue sem
rumo, sem lado, sem flanco ou ribanceira, mas o seu feroz “inimigo” teima a
espreitar incansável do alto da cumeeira.
A batalha é constante. A guerra se
trava em silêncio, sem canhões, sem bandeiras sem toque de recolher! O olhar
frígido comumente é a única baioneta que se serve ríspido a vertical ou
horizonte.
E a dor que se sente, suspiro de uma
quase gente, o inimigo lhes suga a testa, lhes queima a mente, lhes treme
quente em momento que nem chuva não se pensa.
O tempo parou: ele lá e cá aqui o
sertão numa peça de gente. Confia na raiz que imagina e sustenta em medo pela
força, mesmo sem garapa de cana, num rosto atirado pra cima não vacila e não se
atreve a se perder de vista.
O sertanejo, foi-se de sabedoria e
engenhosidade genuína, estas minadas e espremidas da alvoroça extremidade inventiva lida que a necessidade alugada em
praga e reza o obriga.
O sertanejo nasceu inato imune ao
próprio temor, seguro de suas experimentações ao longo de sua vida vivida.
O sertanejo é sábio por seu acurado
instinto mítico. Por superstições, em típica originalidade helênica, mas de um
só Deus pra toda vida!
O sertanejo é o engenhoso funcionamento
da vida desassossegada. Sinais de chuva, ouvidos que ressoa fases da lua;
mudanças, limites, farturas, projeções... Onde com a escassez se brinca, mas com as
“leis” conservar-se e se finda. Não ler enciclopédia para aprender para a vida!
O sertanejo corteja a arte da esperança
com a fé manifesta ritmada na acolhida alegria junina.
Sertanejo manifesta-se em poesia, palavras, formas e em fala pitoresca de frutíferas gerações que já se tem quem cante em filosofia, eis lá o “poeta do
absurdo”. No artesanato que rumina e envereda pelo carrasco, em montaria da
segurança em barro do dia e que amanhece fria. E sempre tem porta batendo de
esperança nas adversidades, choram-se ou tiram-se de ruínas amigas tapeçarias.
Do pífano, da zabumba e da rabeca... o
mistério se esconde, sem rosto, sem nome, sem depoimento e sem cortesia. A aridez
tira o brilho do sorriso, a terra que reside riqueza e lamento, o cordel do
sertanejo foi dado no dom de ensinamento.
Sertanejo sutil fez do sertão o seu
cantil, pelo grito verniz cinzento pinta o cenário do céu com fitas de
pindobas sem polimento. A alegria simples de todo dia, importa mais que alforria!
Sertanejo que faz brotar vida onde não
se imagina. Para quem não se dar a compreender, lá pela velha Canudos de
imponência, Euclides da Cunha hei de dizer: “Não há manhãs que se comparem as de
canudos: nem as manhãs sul mineiras, nem as manhãs douradas do planalto central
de São Paulo”.
E na lembrança da “vingatice” do
Virgulino cruzada na benção do Padin Ciço, homem ligeiro, o sertão seco ou
brejeiro, mais que justiceiro de ontem hoje é forte pelo acolhimento herdeiro, desde
nos arautos do Conselheiro, José Lins, Patativas e Suassunas ao rico povo
obreiro, sombreado nas caatingas dos juazeiros faz-se hoje para sempre perfeito
o bem-vindo com um forte aperto para todo amigo brasileiro, seja ele, devoto ou
não, da esperada e eterna salvação pelo tão ilustre Rei Sebastião!



