Existiu uma corrente
de pensamento que assegurava o Sertão nordestino como uma região inóspita. E de
fato, em partes, ainda na atualidade não deixa de ser verdade. Ou seja, é uma colocação
razoavelmente aceitável quando se parte do seguinte raciocínio: viver em que
condições?
Pois se levarmos em
consideração as regiões do semiárido nordestino com média pluviométrica abaixo
de 500 mm/ano; solo arenoso, pedregoso ou com baixa fertilidade; região sem um mínimo
de estrutura urbana básica (saneamento, energia elétrica, estradas, escolas,
hospitais, etc), enfim, sem incentivo a produção agropecuária para instalações
de agroindústrias, por exemplo, é sem duvida uma região inóspita!
Ou será que aqueles
que moram em regiões com essas carências estão ali por gostarem; por desejo
(pasmem!) de preservar suas raízes culturais a custo de uma situação
deplorável? Ou estão nessas situações por que não tem nenhuma opção de escolha?
Lógico que vivem nesses ambientes, sem um mínimo de dignidade, por não terem onde
ir!
Ou viver na Caatinga comportando-se
semelhante a bichos do mato, sem água tratada e comendo calango, por exemplo, é
algo digno de humanidade? Pode parecer exagero, mas é a triste e cruel
realidade ainda vivida por muitas famílias do semiárido nordestino.
Pois bem, a famigerada
popularidade secular do coronelismo, do clientelismo e da paisagem seca ainda
cultuada de forma pejorativa no Sertão nordestino e pelo país afora, aliada a
situação de flagelo de retirantes e a afamada ‘indústria da seca’, são estigmas
que só serão superados, unicamente, através do paradigma do desenvolvimento
regional. Isto é, o Sertão com reais condições sustentáveis de desenvolvimento
social e agropecuário em convivência com a seca, através das tecnologias
(tantas!) já desenvolvidas e/ou adaptadas por entidades de pesquisas como a
Embrapa, centros de pesquisas regionais e universidades.
E é nesse contexto
que recai a importância do desenvolvimento regional, ou seja, o Sertão dispor
de estruturas mínimas a oferecer reais condições de vida proba aos mais de 20
milhões que habitam essa região semiárida. Isso aliado à conservação dos
recursos naturais e, conhecimentos e culturas tradicionais, inclusive. Economicamente,
é uma forma de substituir a política insustentável de transferência de renda a
uma efetivamente consistente e produtiva, com ocupação e geração de renda.
Segundo Suely Chacon,
em pesquisa de tese de doutorado pela Universidade Federal do Ceará, foi constatada
que 70% em média da renda dos municípios do Sertão são provenientes de
transferências governamentais como aposentadorias rurais e repasse de programas
assistencialistas do governo federal[1]. E corroborando essa situação, por
outro lado, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)
publicados no final de 2014, houve um acréscimo de pouco mais de 300 mil pessoas
à linha de pobreza[2], onde grande parte são pessoas de regiões interioranas do
Nordeste. Ou seja, a política de transferência de renda no quesito melhorar e
desenvolver a condição social das pessoas é insustentável, portanto não
funciona. De fato que somente com o desenvolvimento regional sustentável,
gerando ocupação e renda, é que se pode antever um semiárido nordestino socioeconomicamente
pujante. Uma situação, por exemplo, em que não mais se precisem testemunhar
sertanejos constrangidos a obrigar-se (por força da necessidade!) a votar em
determinado candidato em troca de um balde d’água ou uma cesta de alimentos!
Ademais, na
conjuntura da política brasileira dos interesses pessoais partidários, um
projeto de desenvolvimento para o semiárido é quase impossível de se realizar
(como nunca se realizou) de forma plena por falta de vontade política,
principalmente. Porquanto, raramente quando ocorre é de forma inconsistente,
incompleta e travada a muita dependência de conchavos e interesses político-partidários.
Onde o tema “desenvolvimento” e “sustentabilidade” muitas vezes só aparecem em
momento eleitoral quando os candidatos a utilizam para embelezar seus discursos
partidários. E só!
Contudo, é fato que o
Sertão nordestino é um cenário de resistência, solidariedade e esperança.
Esperança alicerçada na fé religiosa. Uma fé que as más línguas
têm-na de “fatalismo religioso” sem se atentar que foi ela a base principal à formação
cultural e institucional do povo e sociedade sertaneja. E que tem sido o único e maior
sustentáculo para superação das dificuldades de sobrevida do dia-a-dia de cada
um dos sertanejos, atualmente como de outrora, servindo como defesa tanto para o ‘mal olhado’ quanto aos imbróglios
e demagogias políticas-partidárias.
Enfim, ao povo do
semiárido nordestino, ainda resta à fé!
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[1] Suely
Salgueiro Chacon, O Sertanejo e o Caminho das Águas: políticas públicas,
modernidades e sustentabilidade no semiárido. Série BNB Teses e Dissertações nº
08, 253 pág. Banco do Nordeste: Fortaleza-CE, 2007.
[2] http://www.ebc.com.br/noticias/economia/2014/11/numero-de-brasileiros-na-extrema-pobreza-aumenta-pela-primeira-vez-em-dez
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