terça-feira, 27 de outubro de 2015

PAPEL SIM, ÁRVORES SEMPRE.

    

Após ter visto a colocação de que “mais computadores em salas de aulas, significa menos papel e, portanto mais árvores”, confesso que fiquei pasmo diante tamanha desinformação e me vi obrigado a advogar a favor do papel e claro, das árvores.
É possível de antemão entender que tal colocação tenha sido motivada, de forma um tanto quanto precipitada, pelo fato de achar que reduzindo papel, conservará florestas. Ideias daqueles que são levados pelo calor da situação, por uma verve ecológica radical e aí acabam por desinformar aquilo que poderia ser facilmente compreendido. É compreensível a intenção de querer conservar as florestas, mas ainda assim não é justificável condenar o pobre papel. Não há fundamento.
Por outro lado, a colocação pode até soar como simplesmente um anúncio evasivo e torpe do setor de informática a galgar mais mercados!
Pois bem, não sei de quem foi a autoria, intenção ou quem financiou tal campanha. O que não vem ao caso. Porém, percebe-se uma grande desinformação dessa propaganda, por inúmeras razões, contrariando a ideia do papel em salas de aula.
Em favor das árvores, a começar, a propaganda deveria ser: “mais papel em sala de aula, significa portanto mais árvores e, portanto mais sequestro de gás carbônico, mais biocombustível (metanol, por exemplo), mais ar limpo, mais umidade no ar, mais áreas sombreadas, mais parques naturais, mais regularização de microclimas locais...”
Quero dizer com isso que se enganam quem pensa que a produção, o consumo e, portanto o uso do computador em salas de aula, substituindo o papel, estaria contribuindo na proteção as árvores. Não mesmo! A depender do ponto de vista, o computador é mais um vilão do que mocinho. Pois o computador, ainda que sendo um instrumento de grande serventia aos dias atuais, jamais assumirá a posição de destaque como contribuidor para se ter um meio ambiente limpo e protegido. Produzir computadores e afins, significa nada mais, nada menos do que uma queima de combustível fóssil; emissão de dióxido de enxofre, dióxido de carbono; exploração de silício, prata, ferro, ouro, cobre, tungstênio (e mais umas dezenas de outros minerais!). Além do consumo de energia e de água, por exemplo para sua fabricação. É simplesmente um consumo fulminante de recursos naturais não renováveis. E não pára por aí. Hoje é um grande problema encontrar meios seguros para o rejeite dos ditos 'lixos eletrônicos' que são esses computadores e similares descartados, resultando-se em volumes assustadores de lixo em locais inapropriados. E como a cada ano surge novos modelo, os “antigos” sempre serão descartados, ou seja, o volume de lixo é sempre crescente. E, diga-se de passagem, é um lixo altamente tóxico por possuírem metais pesados em alguma de suas peças, poluindo o solo e a água, quando não são descartados de forma segura.
Não quero aqui tirar o mérito e a importância do computador. Longe disso! É inadmissível imaginar um mundo sem ele. E claro, deve sempre auxiliar à educação das crianças. Mas falar que deve substituir papel por computadores em salas de aula com um argumento pífio de que é em favor de proteger as árvores, é de uma total ignorância sem nome. É desconhecer o assunto e desinformar a sociedade. No mínimo, uma falta de bom senso.
Logicamente que consumir papel requer árvores e consumo de água e, ao contrário de acabar com as árvores, a produção de papel requer mais e mais plantio de árvores. Quanto ao consumo de água, trata-se simplesmente de um custo-benefício a atender uma demanda da geração de produtos o que é comum em qualquer atividade agroindustrial. E diferentemente, estamos falando de matéria prima renovável. Só pra se ter uma ideia, das árvores se pode explorar matéria prima para mais de 5.000 utilidades! No caso em questão, o papel advém do processamento da pasta de celulose. Coisa que as indústrias e empresas que exploram a silvicultura de eucalipto faz muito bem, obrigado! Sem contar com a responsabilidade que as industrias de celulose tem com o meio ambiente, onde para entrar no mercado, precisa-se de certificação assumindo rigorosos protocolos. E como o papel deve sempre ser originado de árvores de reflorestamentos, isso engloba uma série de critérios ecológicos, inclusive.
Por outro lado, é leviano quem alardeia que árvores de eucalipto seca o lençol freático, empobrece o solo ou coisa do tipo. O sistema radicular do eucalipto não é profundo ou, como exageram alguns, tem o mesmo comprimento da árvore. Não mesmo, pois a raiz pivotante não chega nem a um terço da árvore. E em seus solos cultivados há uma diversidade de micro e macro organismos. Além de que o seu consumo de água é absurdamente menor comparado com espécies vegetais nativas do Bioma Caatinga, por exemplo. Além de inúmeros benefícios ambientais e sociais que são gerados por essa atividade. Diga-se de passagem, é a única atividade do ramo agropecuário que tem por obrigação manter áreas de florestas nativas no entorno. Para isso, existe uma vasta literatura sobre o tema!  
E como toda monocultura, o eucalipto não é diferente. Pois enganam-se quem espera que num plantio de eucalipto deve possuir biodiversidade por se tratar de uma "floresta plantada". Não mesmo, pois essa floresta se trata de um monocultivo. Da mesma forma que não há biodiversidade em plantio de soja ou cajucultura, por exemplo.
Desse modo, talvez a distorção seja associar papel com madeira nativa. Ou seja, não se deve confundir produção de papel com esses atos criminosos de desmatamentos indiscriminados derrubando árvores nativas a todo custo sem manejo florestal sustentável.  Ou seja, o desmatamento ilegal, nesse caso, é outra história. Mas claro que por ser um crime ambiental, quem assim proceder, deve ser punido de a acordo com a legislação vigente. Entretanto, não se pode confundir derrubadas criminosas de árvores nativas com produção de papel. Não há nenhuma relação. Até porque não se produz papel utilizando árvore nativas. Embora algumas possuam madeira de baixa densidade, uma das características favoráveis à produção, não se conhece ainda empresas que utilizem espécies nativas para esse fim. E mesmo que fossem utilizadas, seriam com base em planos de manejo florestal de rendimento sustentado.
Enfim, produzir papel não ameaça a sustentabilidade do planeta, nem as árvores. No Brasil, por exemplo, o consumo de papel por brasileiro é de 44 kg por ano e isso quer dizer que cada um de nós consome em média meia árvore por ano. Os finlandeses, maiores consumidores de papel no mundo, consomem 341 Kg, ou seja, aproximadamente 4 árvores por ano. Ainda assim irrisório. Isso considerando que são necessários 11 árvores para produzir uma tonelada de papel. Só um eucalipto rende de 20 a 24 mil folhas de papel A4 (75 g/m2 de gramatura).
Portanto, propagandas de que papel não deve ser consumido em favor das árvores, vale salientar que somente estimula o cidadão para um comodismo frente às questões ambientais, promove a desinformação sobre a atividade silvicultural e confunde a sociedade a respeito da importância das árvores e sua relação com papel. Portanto, reafirmo, foi e é uma colocação irresponsável! Pois é mais do que justificável de que árvores devam ser plantadas, independentemente se é para produzir papel ou não. Por outro lado, somemos os inúmeros serviços ambientais que elas executam em favor da manutenção da vida na Terra e veremos o quanto de sua importância.
E papel deve ser utilizado nas escolas sim, sempre e de forma irrestrita. Acredito que quem não defende a ideia de produzir e utilizar papel nas escolas é dotado de ignorância crônica, tem outros interesses ou, infelizmente, é alguém que não teve infância! Papel pode ser produzido infinitivamente, pois não polui o ambiente, é biodegradável e pode ser reutilizado/reciclado, se for o caso.
Retirar papel das escolas e trocar por computador é querer impedir o exercício da liberdade criativa das crianças. É querer afastar a criança do estado natural das coisas. É ceifar das crianças momentos únicos de felicidade em rabiscar papel, de pintar, de imaginar, de escrever, de desenhar.... Sem dúvida é algo mais do que desejado por qualquer criança. Além de ser uma oportunidade à prática do raciocínio e claro, de um entretenimento saudável, de forma educativa e sustentavelmente ecológica!  

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