Após ter visto a colocação de que “mais computadores em salas de
aulas, significa menos papel e, portanto mais árvores”, confesso que
fiquei pasmo diante tamanha desinformação e me vi obrigado a advogar a favor do
papel e claro, das árvores.
É possível de antemão entender que tal
colocação tenha sido motivada, de forma um tanto quanto precipitada, pelo fato
de achar que reduzindo papel, conservará florestas. Ideias daqueles que são
levados pelo calor da situação, por uma verve ecológica radical e aí acabam por
desinformar aquilo que poderia ser facilmente compreendido. É compreensível a
intenção de querer conservar as florestas, mas ainda assim não é justificável
condenar o pobre papel. Não há fundamento.
Por outro lado, a colocação pode até soar
como simplesmente um anúncio evasivo e torpe do setor de informática a
galgar mais mercados!
Pois bem, não sei de quem foi a autoria,
intenção ou quem financiou tal campanha. O que não vem ao caso. Porém, percebe-se
uma grande desinformação dessa propaganda, por inúmeras razões, contrariando a
ideia do papel em salas de aula.
Em favor das árvores, a começar, a propaganda
deveria ser: “mais papel em sala de
aula, significa portanto mais árvores e, portanto mais sequestro de gás
carbônico, mais biocombustível (metanol, por exemplo), mais ar limpo, mais
umidade no ar, mais áreas sombreadas, mais parques naturais, mais regularização
de microclimas locais...”
Quero dizer com isso que se enganam quem
pensa que a produção, o consumo e, portanto o uso do computador em salas de
aula, substituindo o papel, estaria contribuindo na proteção as árvores. Não
mesmo! A depender do ponto de vista, o computador é mais um vilão do que
mocinho. Pois o computador, ainda que sendo um instrumento de grande serventia aos
dias atuais, jamais assumirá a posição de destaque como contribuidor para se ter um
meio ambiente limpo e protegido. Produzir computadores e afins, significa
nada mais, nada menos do que uma queima de combustível fóssil; emissão de dióxido
de enxofre, dióxido de carbono; exploração de silício, prata, ferro, ouro,
cobre, tungstênio (e mais umas dezenas de outros minerais!). Além do consumo de
energia e de água, por exemplo para sua fabricação. É simplesmente um consumo
fulminante de recursos naturais não renováveis. E não pára por aí. Hoje
é um grande problema encontrar meios seguros para o rejeite dos ditos 'lixos
eletrônicos' que são esses computadores e similares descartados, resultando-se
em volumes assustadores de lixo em locais inapropriados. E como a cada ano
surge novos modelo, os “antigos” sempre serão descartados, ou seja, o volume de
lixo é sempre crescente. E, diga-se de passagem, é um lixo altamente tóxico por
possuírem metais pesados em alguma de suas peças, poluindo o solo e a água,
quando não são descartados de forma segura.
Não quero aqui tirar o mérito e a importância
do computador. Longe disso! É inadmissível imaginar um mundo sem ele. E claro,
deve sempre auxiliar à educação das crianças. Mas falar que deve substituir papel por computadores em salas de aula com um argumento pífio de que é em favor de proteger
as árvores, é de uma total ignorância sem nome. É desconhecer o assunto e
desinformar a sociedade. No mínimo, uma falta de bom senso.
Logicamente que consumir papel requer árvores
e consumo de água e, ao contrário de acabar com as árvores, a produção de papel requer mais e mais plantio de árvores. Quanto ao consumo de água, trata-se simplesmente de um custo-benefício a atender uma demanda da geração de produtos o que é comum em qualquer atividade agroindustrial. E diferentemente, estamos falando de
matéria prima renovável. Só pra se ter uma ideia, das árvores se pode explorar
matéria prima para mais de 5.000 utilidades! No caso em questão, o papel advém
do processamento da pasta de celulose. Coisa que as indústrias e empresas que
exploram a silvicultura de eucalipto faz muito bem, obrigado! Sem contar com a
responsabilidade que as industrias de celulose tem com o meio ambiente, onde para entrar no mercado, precisa-se de certificação assumindo rigorosos protocolos.
E como o papel deve sempre ser originado de árvores de reflorestamentos, isso
engloba uma série de critérios ecológicos, inclusive.
Por outro lado, é leviano quem alardeia que
árvores de eucalipto seca o lençol freático, empobrece o solo ou coisa do tipo.
O sistema radicular do eucalipto não é profundo ou, como exageram alguns, tem o mesmo comprimento da árvore. Não mesmo, pois a raiz pivotante não chega nem a um terço da árvore. E em seus solos cultivados há
uma diversidade de micro e macro organismos. Além de que o seu consumo de água
é absurdamente menor comparado com espécies vegetais nativas do Bioma Caatinga, por
exemplo. Além de inúmeros benefícios ambientais e sociais que são gerados por essa atividade. Diga-se de passagem, é a única atividade do ramo agropecuário que tem por obrigação manter áreas de florestas nativas no entorno. Para isso, existe uma vasta literatura sobre o tema!
E como toda monocultura, o eucalipto não é
diferente. Pois enganam-se quem espera que num plantio de eucalipto deve
possuir biodiversidade por se tratar de uma "floresta plantada". Não
mesmo, pois essa floresta se trata de um monocultivo. Da mesma forma que não há
biodiversidade em plantio de soja ou cajucultura, por exemplo.
Desse modo, talvez a distorção seja
associar papel com madeira nativa. Ou seja, não se deve confundir produção de
papel com esses atos criminosos de desmatamentos indiscriminados derrubando árvores nativas a todo custo sem manejo florestal
sustentável. Ou seja, o desmatamento ilegal, nesse caso, é outra história. Mas claro que por ser um crime ambiental, quem assim proceder, deve ser punido de a acordo com a legislação vigente. Entretanto, não se pode confundir derrubadas criminosas de árvores nativas com produção de papel. Não há nenhuma relação.
Até porque não se produz papel utilizando árvore nativas. Embora algumas possuam madeira de baixa densidade, uma das características favoráveis à
produção, não se conhece ainda empresas que utilizem espécies nativas para
esse fim. E mesmo que fossem utilizadas, seriam com base em planos de manejo
florestal de rendimento sustentado.
Enfim, produzir papel não ameaça a
sustentabilidade do planeta, nem as árvores. No Brasil, por exemplo, o consumo
de papel por brasileiro é de 44 kg por ano e isso quer dizer que cada um de nós
consome em média meia árvore por ano. Os finlandeses, maiores consumidores de papel no mundo,
consomem 341 Kg, ou seja, aproximadamente 4 árvores por ano. Ainda assim irrisório. Isso considerando
que são necessários 11 árvores para produzir uma tonelada de papel. Só um
eucalipto rende de 20 a 24 mil folhas de papel A4 (75 g/m2 de gramatura).
Portanto, propagandas de que papel não deve ser consumido em favor das árvores, vale salientar que somente estimula o cidadão para um comodismo frente às questões ambientais, promove a desinformação
sobre a atividade silvicultural e confunde a sociedade a respeito da importância
das árvores e sua relação com papel. Portanto, reafirmo, foi e é uma colocação irresponsável! Pois é mais do
que justificável de que árvores devam ser plantadas, independentemente se é
para produzir papel ou não. Por outro lado, somemos os inúmeros serviços
ambientais que elas executam em favor da manutenção da vida na Terra e veremos
o quanto de sua importância.
E papel deve ser utilizado nas escolas sim, sempre e de forma irrestrita. Acredito que quem não defende a ideia de produzir e
utilizar papel nas escolas é dotado de ignorância crônica, tem outros
interesses ou, infelizmente, é alguém que não teve infância! Papel pode ser
produzido infinitivamente, pois não polui o ambiente, é biodegradável e pode
ser reutilizado/reciclado, se for o caso.
Retirar papel das escolas e trocar por
computador é querer impedir o exercício da liberdade criativa das crianças. É
querer afastar a criança do estado natural das coisas. É ceifar das crianças
momentos únicos de felicidade em rabiscar papel, de pintar, de imaginar, de
escrever, de desenhar.... Sem dúvida é algo mais do que desejado por qualquer
criança. Além de ser uma oportunidade à prática do raciocínio e claro, de um
entretenimento saudável, de forma educativa e sustentavelmente ecológica!

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